segunda-feira, 30 de junho de 2008

Redescobrir

É incrível como o mundo em nossa volta pode ser incrivelmente influente sobre a nossa vida e a forma que nós a encaramos. Ainda estou longe de completar meus primeiros três séculos de vida, mas muitas vezes as circunstâncias nos fazem perder algumas coisas que nos são essenciais. Nem damos a menor importância sequer ao fato, estamos ocupados com nossas vidas duras. Hoje, já formado, me vejo em uma área do jornalismo que nunca achei que estaria quando entrei na faculdade, mas está sendo algo extremamente bom para mim. Não apenas pelo lado profissional. Trabalhar com jornalismo institucional foi um grande ponto de interrogação no começo, não sabia se iria me adaptar com este tipo de trabalho. Só que este não é o tema deste texto, sim aqueles que me permitiram redescobrir alguns de meus valores.

Uma das minhas grandes inquietações sobre trabalhar no Núcleo de Comunicação de um colégio seria a minha falta de paciência com a "pirralhada". Independente da idade. Apesar da proximidade de idade, depois que se entra para um mercado de trabalho mais sério, certas coisas da sua juventude ficam perdida no tempo. E existe uma grande dificuldade em saber lidar com essa perda. Uma chave permite que você transite da informalidade a formalidade de uma hora para outra, porém te impede de trabalhar com as duas coisas ligadas ao mesmo tempo. Ao menos isso sempre foi assim para mim. Ai estava a questão, em que posição ligar a chave? Comecei com uma postura defensiva e séria. Tinha certeza que essa seria a melhor forma de manter o respeito com os moleques e com a diretoria da escola. Isso apenas fez com que eu fosse cada vez mais um objeto estranho aos olhos de muitos alunos que freqüentavam meu local de trabalho nos intervalos.

Outro problema é que esse não era eu, sempre fui um cara muito informal e tranqüilo. Não deu outra, de uma hora para outra estava conversando com eles como se fossem grandes amigos. Não tenho certeza quem foi a primeira pessoa com quem conversei longe da postura defensiva, tenho uma vaga idéia, mas não cometerei injustiças. Você se aproxima deles aos poucos e eles passam a confiar em você e você neles.

Mais do que isso, comecei a ver muito de mim de alguns anos atrás, refletido nas ações deles de hoje. Os medos, alegrias, indecisões, vontades, descobertas. Coisas que há muito haviam apagado em mim. Existe algo estranhamente belo em ser jovem que não podemos perder. Um brilho nos olhos que nos faz acreditar que ainda existe esperança. Um brilho que reflete a insegurança que nos traz a segurança para seguirmos. A vontade de nunca querer sair do colégio que freqüentamos há anos, que nos faz ter mais força para irmos a lugares desconhecidos. As descobertas do amor que nunca tivemos. Detalhes que passamos por cima em busca da maturidade que acreditamos ser incrivelmente necessária. Que belo é o brilho no olhar de todos, brilho que infelizmente não vejo mais em pessoas que antes os tinha.

Isso tudo me veio de um ato muito simples, na festa junina do colégio. Após a dança dos terceiros anos, eles permaneceram em quadra e receberam aplausos de todos. Se abraçaram, choraram, comemoraram. Em meio a tudo isso três alunas vieram até mim, muito provavelmente por acaso, mas lá estava o brilho no olhar. Em meio a lágrimas, mas mais forte do que nunca. Em um abraço curto, porém sincero, podia se sentir que apesar da dor da separação iminente, havia a vontade de descobrir e de ganhar asas para voar o mundo todo.

Já diria o poeta: "A chama ainda queima, está lá em minha alma. E a menor lembrança do passado ela volta a se acender". Essa chama está em todos nós, mas muitos nem sequer terão a habilidade para recuperar esse brilho. Vocês que ainda o têm, não deixem que ele se apague, pois é esse brilho que permite que nós façamos a diferença, que aos poucos, sejamos capazes de mudar o mundo. Não ousem deixar essa chama se apagar de suas almas. Agora entendo o por que é tão prazeroso ser professor/; é por que eles nunca se esquecem de olhar dentro dos olhos de vocês e lembrar de tudo que eu disse nesse texto. Vocês me deram a chance de voltar a acendê-la, mesmo que mais suavemente. Isso, eu nunca poderei agradecer, ou retribuir, mesmo que eu tente. Nestes próximos seis meses que ainda tenho para conviver com alguns de vocês espero dar mais força a esse brilho. E se alguns de vocês me cobraram a atualização deste blog, ai vai, especialmente para vocês.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Ele e Ela

Assim que o despertador tocou, no quarto apertado em um flat perto do centro da cidade de São Paulo, Juliana saltou rapidamente da cama. Espreguiçou-se, abriu um sorriso, e foi tomar um banho. Enquanto isso, bem longe dali, em um apartamento espaçoso no Morumbi, Fabiano desligou o celular e resolveu dormir mais alguns minutinhos. Enquanto ela sentia a água quente tocar cada parte do seu corpo, despertando todos os sentidos. Ele acendia um cigarro e dava um longo trago. Ele achava que estava frio demais para sair debaixo dos cobertores.

Jú, era assim que os amigos mais próximos à chamavam, nunca teve uma vida muito fácil. O pai costumava beber demais e a mãe sofria nas mãos de um homem rude e mal educado, que mesmo sem botar a mão em um fio de cabelo de qualquer uma das duas, deixava o clima da temeroso. Depois que ele morreu em um acidente de carro as coisas pareceram melhorar. Ela entrou no curso de letras da Universidade de São Paulo, a mãe fazia de tudo para que a filha não desistisse dos estudos. Formada, conseguiu emprego em um bom colégio da Capital.

Biano, apelido de infância teve uma vida sossegada. Filho de um grande bancário, extremamente influente, e de uma publicitária de sucesso, passou a infância entre a Disney, Nova Iorque, Cancún e outros paraísos. Ganhou um BMW aos 18 anos, quando já cursava o segundo ano de Publicidade e Propaganda da ESPM. Não, ele não era nada burro, somente preguiçoso. Para falar a verdade, era um talento nato, descoberto pela mãe, que o obrigou a seguir os mesmo passos que ela. Até mesmo, por que os números não eram o seu forte.

Deu-se assim, que o destino, olhando lá de cima em meio as nuvens, entediado com o que via no mundo dos homens, quis que esses universos completamente diferentes se encontrassem. Ele curtia o sol do meio dia, que aquecia o inverno repentino que assolava a cidade. Ele almoçava mais uma vez em dos melhores restaurantes com os amigos do trabalho. Ela estava lá só porque comemorava ter sido aceita no mestrado na USP.

Eles se olharam. Gostaram, observaram, admiraram, desejaram, mas continuaram calados. Olhavam dentro dos olhos um do outro. Ela riu, ele baixou a cabeça e respondeu a pergunta do colega. Ela se levantou para ir ao toalete, ele a seguiu. A esperou do lado de fora. Ela se surpreendeu, ele a convenceu. Sairiam a noite, ele a buscaria na casa dela.

Juliana nunca havia entrado em um carro tão luxuoso, sua melhor roupa parecia nada perto do estofamento do veículo. Fabiano estava muito elegante, simples, mas bem vestido. Eles conversaram sobre tudo que se podia imaginar. Brincadeiras da época de criança, as experiências de cada um e o que faziam da vida. Davam risadas juntos, conversavam fluentemente, estava tudo como costumava ser.

Jantaram em um bom restaurante, deram algumas voltas e foram para o apartamento dele. Ele abriu um vinho, que ela jamais sonhará em experimentar. Ele mostrou alguns trabalhos que estava desenvolvendo. Na sala, se beijaram. No quarto, se amaram. Naquele momento não eram ele e ela, eram somente um. Um desejo, um amor, uma vontade, um sonho, uma realidade. Ela experimentava um sentimento que nunca sentirá na vida, ele começava a entender que os sentimentos não custam nada, mas todo o dinheiro do mundo não pode comprar algo tão puro.