terça-feira, 15 de julho de 2008

Um Romance em Cinco Partes – Capítulo 1

Adriano olhava as luzes da cidade de São Paulo pela pequena janela do avião, faltava pouco para ele voltar a pisar em solo brasileiro. Solo que deixou há pouco mais de cinco anos, quando foi para Europa para estudar, trabalhar e conhecer novas culturas. Oficialmente estava na Inglaterra, mas aproveitou para conhecer ares franceses, alemães, italianos e todos outros possíveis. Contudo, não podia mais esperar para rever a terra que amava tanto.

Ligou para o editor do jornal para quem trabalhava aqui no país e anunciou o seu desejo de voltar. Apesar de ninguém entender o que alguém que tinha o respeito, o cargo de correspondente que ele tinha e com apenas os 29 anos que ele tinha, poderia estar com tanta vontade de voltar de vez para cá ao invés de pegar apenas alguns dias de férias. Sua mente se perdia em tudo e todos que queria rever. Os pais, os irmãos, amigos e todos que estava com saudade. Já pensava em passear com o cachorro que deixará aqui no Brasil, mas que já devia estar velinho. Não importava, queria fazer um último afago no amigo de quatro patas.

Os devaneios do jornalista foram interrompidos pela voz do comandante fazendo o último anúncio antes do pouso. Cadeira no lugar, cinto preso. Era a última etapa da volta para a casa. Após um pouso tranqüilo e com apenas alguns minutos de atraso, Adriano se preparou para enfrentar a primeira prova de que estava de volta ao Brasil, fila e burocracia. Após uma grande festa, abraços, beijos e afins embarcara, todos no carro do irmão mais velho e foram todos para a casa dos pais.

Lá, esperava uma das coisas da qual o rapaz mais sentia falta. Uma pizza feita na esquina do quarteirão em que a família morava, no tradicional bairro da Mooca. De barriga cheia e com uma cerveja gelada, ele tirou todas as coisas da mala e dormiu em sua velha cama de solteiro.

No dia seguinte, uma quarta-feira, ele acordou tarde e tomou um bom café da manhã. Descobriu que tinha jogo na Rua Javari, histórico estádio do Juventus, um os clubes mais tradicionais da cidade. Como era bom voltar aquele acanhado estádio, com a mesma cara que tinha na última vez em que foi reformado na década de 1960. Sem aquelas arenas tecnológicas, sem charme, sem história.

À noite, ligou para uns amigos e combinou de sair para tomar uma cerveja. Estava de volta na noite paulista, estava de volta a sua casa. Antigos colegas de redação, faculdade, festas, ele havia conseguido reunir uma boa quantidade de pessoas que gostaria de ver em seu retorno. Havia muita coisa pra contar e muita coisa para escutar. Alguns com menos cabelo, outros casados, acompanhados, promovidos, ainda havia um pai ali no meio. Só dera falta de uma pessoa que gostaria d ver, chegou até a sonhar com ela no avião. Julia era irmã de Antônio, amigo de Adriano desde infância, quando os dois passavam as tardes jogando bola na rua, empinando pipa e jogando fubeca no jardim de casa.

Julia era um ano mais nova que os dois, com cabelos negros, pela clara e olhos tão azuis quanto a água da praia deve ser. Durante a infância sempre foi uma menina magricela e meio "muleca". Mesmo gostando da companhia dos garotos, eles nunca permitiram que ela acompanhasse as brincadeiras Contudo, o destino daria um jeito de dar o troco. Quando atingiu a adolescência, a garota virou uma bela mulher, de seios fartos, pele macia, um corpo escultural, premiado com um rosto inigualável. Tornou-se a grande paixão de muitos meninos, inclusive de Adriano. O irmão passou a ser do tipo ciumento e protetor, não gostava nem um pouco da história de seu melhor amigo virar cunhado. Como poderia escolher entre os dois caso terminassem? Não podia, e nem queria, perder a companhia deles.

Adriano e Julia nunca realmente chegaram a namorar, por um respeito bobo ao irmão e amigo, mas também por que nunca nenhum dos dois queria admitir que estava apaixonado pelo outro. Alias Julia nunca contou a ninguém que gostava de Adriano, principalmente por que Paula, sua grande amiga, já havia comentado sobre seu interesse pelo futuro jornalista. E foi ela a primeira namorada oficial do garoto, enquanto a sua verdadeira paixão começava um namoro com um garoto do colégio dela.

Sempre que terminavam um namoro ou algum casinho, os dois acabavam sempre procurando a companhia um do outro. Passavam noites conversando na sala de estar da casa dos irmãos, enquanto Antônio roncava no sofá e algum filme que ele realmente queria assistir passava na televisão.

Os dois chegaram a sair, mas o tal de Sr. Destino resolveu que um oceano de distância seria o suficiente para que a história de amor dos dois ficasse por ali mesmo. No entanto, esse coração sem sentido que ama quem quer, quando quer e nem sequer pergunta se a pessoa quer. Que sabe que um amor de verdade não pode morrer, que só fica ali no canto, guardando o sentimento mais puro que se pode ter. Esperando que as pessoas se encontrem novamente. Para que na menor centelha de lembrança, do perfume que só a pessoa amada tem, a chama volte a arder sem controle e sem aviso prévio.

Foi assim com Adriano, mas ele temia que não fora assim com Julia. Ela provavelmente tinha alguma coisa marcada e não podia simplesmente sair correndo atrás de um homem com quem mal havia conversado nos últimos anos.

Ele se segurou o quanto pode, mas não podia deixar a chance passar, voltou-se para o amigo e disparou sem nem pedir licença. "E sua irmã, não vem?", sob o olhar surpreso e malicioso do amigo, Adriano ficou quieto "Sabia que você não ia agüentar. Queria só ver quanto tempo ia se conformar com o fato de ela simplesmente não querer falar com você". "Fala logo, deixa de ser chato. Por que ela ainda não está aqui?". "Quis seguir a grande carreira de médica, agora tem que segurar o plantão. Mas não fica preocupado, ela deve sair daqui a pouco, a Ju ficou super feliz que você tinha voltado. Só não gostou de você não ter avisado ela antes."

O sorriso se abria no rosto do amigo. Ela vinha, em alguns instantes.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Contos e Crônicas da Vida Moderna - Mariana

Mariana acordou com o som da chuva que batia na janela do seu quarto, quem dera alguém tivesse comentado com São Pedro que a época das chuvas ia demorar a chegar. Ela não gostava daquele som, deixava a casa ainda mais vazia. Não pensou que se sentiria tão só depois que sua ex-colega saiu do apartamento devido ao que chamara de "divergências de estilo". E coloque nesse pacote todos os estilos possíveis: de vida, de roupa, comida, religião e outras coisas mais. Porém foram sempre boas companheiras de casa, dividiam as tarefas igualmente, respeitavam o quarto uma da outra, mas depois de algumas discussões bestas, lá se foi o respeito todo. Para completar, Mariana terminou o namoro de dois anos e passou a beber grandes quantidades de wiski, que sempre fora sua bebida predileta, além de passar a fumar quase dois maços de cigarros por dia.


Aos 22 anos de idade a menina desistiu completamente de viver descentemente. Acordada, às 5h30 da manhã, esticou seu braço fino e esguio para alcançar seu Luke Strike de onde puxou um cigarro que acendeu com seu Zippo, último presente dele antes do final do namoro. Ficou ali na cama, sentada, aproveitando cada um dos tragos que puxava de seu vício. Não via aquilo como um minuto de vida perdido, mas algum tempo de dor a menos. Queria acabar logo com o sofrimento que lhe atormentava o coração. Levantou e foi até a cozinha, na mesa estava uma garrafa com um último gole de Old Eight. Sorveu aquele líquido como se fosse água, limpou a boca com a alça da blusinha branca que usava. Andou pela sala revirando cada milímetro, não parecia haver mais nenhuma gota de álcool pelo apartamento. Começou a ficar nervosa, não sabia como ia fazer para solucionar seu problema àquela hora, ainda era cedo de mais.


Colocou sua antiga calça jeans rasgada e saiu pelas ruas. Procurava alguma coisa, qualquer coisa, que lhe pudesse dar uma dose a mais de bebida. Entrou em uma padaria, mas o balconista relutava em vender pinga para alguém tão jovem às seis e pouco da matina. Mariana seguiu enfrente onde encontrou outra padaria, o dono do recinto, não conseguiu negar o pedido, a menina já estava ficando alterada. Bebeu um copo de café cheio em apenas alguns goles e pegou uma garrafa Pinga para levar para casa. Além de um pacote novo de cigarros.


Ao chegar no apartamento bebeu mais um pouco, fumou mais dois ou três cigarros e foi tomar uma banho. Foi andando até a universidade para ter aula, mas dormiu durante grande parte da manhã, sob o efeito da quantidade massiva de álcool ingerida em pouco tempo. Depois da aula ficou perambulando pelo campus da instituição alimentando seus vícios enquanto lia um pouco de poesia e conversava com alguns conhecidos. Mudou de caminho umas duas vezes pois virá o ex-namorado conversando com os amigos, não queria que ele a visse naquele estado.


Voltou para casa no início da tarde. Retomou a garrafa e passou a beber em grandes goles, sem se importar com os efeitos destrutivos que a bebida de má qualidade lhe estava causando. Fumou um "presentinho" que havia ganhado de um colega e em seguida abriu mais um maço. Aquele estava sendo um dia pesado, ela mesmo percebia que devia dar uma folga. Mas ao invés disso desceu para comprar mais bebida. Voltou, foi ao banheiro e depois abriu a garrafa de Old Eight. Bebeu mais alguns goles quando parou.


Foi até a sacada, o brilho suave da lua batia diretamente em seu rosto. Respirou fundo, enquanto admirava os oito andares de altura abaixo. Ficou ali, parada. Mais um gole. Mais um cigarro. Voltou para o quarto, e se deitou. Amanhã seria outro dia.


Quem sabe, talvez não.


Mariana se levantou e voltou para a sacada...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Mulheres, como não amar todas elas?

Um amigo um dia me perguntou onde as mulheres escondem a beleza que nos atrai? Como podem todas elas ser tão belas aos nossos olhos infantis, muitas vezes inocentes? Meu Deus, não posso responder essas perguntas. Não por que não quero, simplesmente por que não há resposta para as mesmas. Mulheres são seres supremos, são belas e graciosas. Não sei para que inventaram essa tal de maquiagem, nada é mais perfeito em uma mulher que a graciosidade da simplicidade. Elas têm um perfume natural, que supera qualquer outro já inventado por nós, meros mortais. Basta uma calça jeans e uma camisa branca, para que elas estejam mais belas que qualquer um de nós homens. São elas, as criações mais perfeitas do Universo.

Muitos podem dizer que é uma pena elas não virem com manual de instrução, para que nós nunca fizéssemos nada errado. Mas ai, qual seria a graça? Não seriamos obrigados a observá-las atentamente, detalhando cada passo, cada gesto e sorriso. Não teríamos que fazer nossos grandiosos esforços para descobrirmos uma pequena informação de sua personalidade. Qual seria a graça de saber qual o primeiro restaurante levá-la? Em que parte do seu corpo deve beijá-la, para que ela caia para sempre em seus braços. Não, isso não teria graça, seria como comprar uma geladeira nova. Uma coisa completamente sem graça, ou vocês conhecem algum homem que goste de comprar geladeiras. A nossa tão temível TPM, de nada serviria de nada, se você soubesse exatamente o que fazer para acalmar seu amor. Se a solução para isso seria um pote de sorvete de morango, ou uma barra de chocolate, ou quem sabe uma geladeira nova. Seria um saco simplesmente por que depois, ela não teria motivos para vir pedir desculpas por uma briga besta. Ação que acaba resultando em beijos, amassos e, a final, sexo. Perderia completamente a graça da vida.

Ah, as mulheres, nas manhãs frias te acordam com um abraço apertado de baixo dos cobertores em busca de seu calor. Permitindo-nos sentir cada curva de seu corpo, cada centímetro da sensualidade de seu corpo. No verão, nos presenteiam com sua nudez perfeita, brilhando aos raios de sol que surgem no horizonte. E como disse sabiamente Arnaldo Jabor, não serve aquelas mulheres perfeitinhas. "Elas acordam muito cedo para ficar fazendo chapinha" e acabam perdendo bons momentos de pegação no amanhecer de cada dia. Bom mesmo é aquela mulher que toma a cerveja com você, que te acompanha nas noitadas com os amigos, que sabe quando é a hora de fazer amor e a hora de fazer sexo. Que na manhã de cada dia te presenteia com um sorriso. Que são capazes de fazer o cafuné mais perfeito do mundo. Só elas sabem como serem delicadas e vulgares na medida certa e na hora certa.

É melhor ficar assim. Ficar sem entender as dores, felicidades e outras coisas mais sobre a mulher. Fica muito mais divertido, mais interessante. Não procure entender por que elas preferem os cafajestes que as fazem chorar. Se transforme em um, nem que seja de mentira, é muito mais fácil. Para que entender de cabelo, apenas tenha certeza de que estará pronto para elogiar as pequenas mudanças imperceptíveis, mas que para elas é será o céu quando você comentar: "Cortou o cabelo?! Agora você está ainda mais bonita". Pronto, lá estará o sorriso que tanto amamos.

Deixemos que sejam todas assim. Belas, como devem ser.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Contos e Crônicas da Vida Moderna - Carolina

Carolina sabia que aquele seria mais um dia normal de trabalho. Estava atrasada como sempre e corria para pegar o metrô que a levaria até a Avenida Paulista. Subiu as escadas dois degraus de cada vez e se apertou ainda mais de baixo das roupas pesadas, que usava para superar o frio que fazia na cidade da garoa, onde por sinal, garoava. Chegou ao trabalho e foi recepcionada por um chefe nervoso, estressado e muito mal humorado, logo às 8h e alguma coisa da manhã. Carolina pouco se ligou naquilo que o homem falava aos berros, seus pensamentos continuavam ligados nos fantasmas que a atormentaram durante toda a noite passada. Havia anos que não via ou ouvia sua mãe, desde quando deixou a pequena cidade em que nascera, no interior de Minas Gerais, quando ainda tinha apenas 16 anos. Logo após a morte do pai pelo qual era apaixonada, quando ainda era apenas uma menina de cabelos loiros escuros, levemente encaracolados, olhos cor de mel e a tez clara levemente bronzeada. Agora, mais de uma década depois, a voz da mulher que estava escondida nos porões mais obscuros de sua mente voltava a ecoar pela linha telefônica. Ela disse, no passado, que um dia elas voltariam se encontrar, a menina não acreditou, mas o dia parecia mais perto do que nunca.

Se o dia de trabalho rendeu, pouco importava para a garota, agora ela queria chegar em casa e ter toda a certeza de que ninguém indesejada estaria a sua espera. Quando chegou a casa, a luz da sala estava acesa. Por um momento seu coração gelou, sua respiração travou, o suor aumentou, mas logo observou o carro do namorado parado do lado de fora da casa e veio o pensamento óbvio de que a mãe nunca poderia ter entrado na casa. Entrou correndo e abraçou e beijou o rapaz como há tempos não fazia. Não falaram muito naquela noite, ele sabia que ela não queria comentar sobre o assunto que atormentava. Marcelo havia retornado mais cedo de uma viajem de trabalho e tinha preparado um jantar especial para Carolina, ambos queriam apenas curtir o momento que havia sido preparado com tanto carinho. Passaram a noite juntos, sem se preocupar com o que estava acontecendo no resto do mundo.

No dia seguinte Carolina acordou na hora certa e deixou o namorado dormindo. Preparou um café fresco, sorveu cada gole com todo o prazer possível que poderia sentir. Depois se vestiu e foi ao trabalho com um sorriso no rosto, pegou o metrô despreocupada com a hora e o possível desgosto do chefe com sua vida mesquinha e sem graça. Marcelo por sua vez encontrou a mesa posta ao acordar no meio da manhã fria. Os cabelos negros e curtos ainda estavam úmidos do banho recém tomado, a barba feita dava um ar jovial ao rapaz que estava perto de completar 30 anos de vida. Comeu pouco e tomou um bom copo de suco de laranja. Era hora de ir para Universidade onde era professor do curso de Publicidade e Propaganda.

Aos poucos Carolina voltava a lembrar da voz da mulher quase sexagenária que falava ao telefone na noite retrasada. Contudo, a noite passada junto ao amor de sua vida a havia feito enxergar tudo de outra maneira. Seria aquela a oportunidade de juntar o passado e o futuro? Recomeçar a vida de ontem junto com a de hoje ao lado das pessoas que realmente importavam? Lembrava que seu namorado havia perdido os pais quando era penas uma criança. Aos seis anos de idade a mãe morrera de câncer. O pai afogou as dores na bebida, até que quando Marcelo tinha 12 anos o pai morrera em um acidente de carro. A ironia, é que nesse dia o homem estava sóbrio, não podia se dizer o mesmo do rapaz que dirigia um carro esportivo em alta velocidade junto com outros três amigos. Estes quatro nada sofreram.

Era isso, o Mestre de todos resolveu lá do alto de sua justiça e sabedoria que aquele seria o momento em que os três iriam recomeçar a vida que sempre deveriam ter tido. Não importava qual era o passado da mulher que ela não tinha notícia há tanto tempo. Ela sabia que o homem de sua vida não iria impedir que as duas tentassem ser felizes a qualquer custo. Foi exatamente atrás disso que ela foi quando deixou o ninho. Queria ser feliz, mas sua casa não parecia ser o lugar para que isso acontecesse. Será que ela estava errada naquela época e receberia a segunda chance para abraçar e beijar a mulher que lhe deu a vida. Nesse momento o telefone toca no escritório, é para ela. Quem poderia ser? Será que era a mãe?

Era Marcelo. A felicidade era uma só, ela queria contar logo o que finalmente iria acontecer aos dois, quem sabe ainda hoje, quem sabe agora. A alegria era tamanha que ela mal conseguia colocar as idéias em uma ordem inteligível. Do outro lado o rapaz mal entendia o que se passava, pedia calma e dava risadas por sentir a felicidade de Carolina. Para ajudar ele resolveu que seria melhor abaixar o volume do som, quem sabe desligar. Tirou os olhos da rua por um instante, para poder encontrar o botão do rádio. Quando foi ver, era tarde de mais para frear, desviar ou qualquer coisa. A sua frente uma mulher visivelmente perdida atravessava rua sem saber muito bem para onde olhar.

Do outro lado da linha a moça só pode escutar os freios do carro de Marcelo travarem as rodas. O grito e finalmente silêncio que se abatera sobre o local e o telefone. Uma onda de energia negativa passou pelo corpo de Carolina, quando escutou a voz fraca, trêmula, assustada. "Atropelei alguém" eram as duas palavras que Carolina escutava do homem com quem falava. Não sabia o que fazer, não tinha idéia se largava o telefone e corria para o lugar, ou se esperava algo mais concreto para sair de lá.

Marcelo recobrou a consciência plena e encerrou a conversa com Carolina para chamar o resgate. A mulher se mantinha imóvel no chão. Havia um pouco de sangue ao redor de sua cabeça. Seus traços eram um pouco conhecidos para o garoto, mas ele não sabia dizer ao certo de onde conhecia a mulher que havia atropelado poucos instantes atrás. Se ajoelhou pedindo desculpas. Ambos estavam errados, ela estava fora da faixa, não olhou para os lados, estava perdida e ao invés de prestar mais atenção foi descuidada. Por outro lado, Marcelo não podia deixar de pensar que fora a sua ligação para a namorada que causará o acidente.

Começou a falar com a mulher para que ela se mantivesse consciente. Começou com perguntas desconexas, descobriu o nome da senhora, Marta, outro nome que não lhe soava estranho, mas era comum demais para que ele considerasse isso relevante. Ela estava em São Paulo para ver a filha, que não via muitos anos, mal sabia como ela estava agora, mas tinha uma foto dela mais jovem. Passou para ele a uma fotografia velha, um pouco desbotada. Não havia dúvida, aquele rosto ele reconheceria no retrato mais desgastado e antigo que existisse. Era a mãe de Carolina, de quem ele pouco escutara até então. Explicava tudo, desde a estranha noite anterior, até a euforia desenfreada pela qual Carolina estava passando.

A garota entrou no hospital aos prantos. Ao ver Marcelo a menina correu em sua direção, o abraçou e desatou a chorar mais e mais. Quando o médico saiu pela porta de acesso a sala de espera, as notícias eram as piores. O choque foi extremamente forte para a mulher resistir aos ferimentos. Havia apenas uma coisa que a mantinha viva, a vontade de ver Carolina por uma última vez. A menina entrou no quarto para um reencontro com a mesma expressão de mais de 11 anos atrás. Sozinha, com medo, raiva, felicidade, um misto de emoções pelo qual ainda não estava pronta para passar pela segunda vez na vida. As duas ficaram abraçadas por cinco minutos, foram poucas as palavras, apenas algumas declarações de amor. Ambas perdoavam e eram perdoadas por qualquer coisa. Não havia importância se as duas estavam certas ou erradas. Queriam apenas resumir aqueles anos todos em alguns instantes. Quando o coração de Marta parou, não houve tentativa de reanimação. As coisas ficaram como deveriam estar. O pranto de Carolina cessou, seu espírito estava em paz.