terça-feira, 5 de agosto de 2008

Um Romance em Cinco Partes – Capítulo II

Naquela manhã Julia havia acordado com o sol batendo em sua janela. Espreguiçou-se, colocou o roupão e desceu para tomar o café da manhã. Saiu para correr por volta das oito na manhã, voltou depois de pouco mais de uma hora. Aquela era a hora que ela aproveitava para relaxar, pensar na vida e naquilo que a esperava pela frente. Porém, naquele dia, ela tinha apenas uma coisa em mente, a volta de Adriano para o Brasil era a melhor notícia que ela recebia em alguns anos.

Tomou um banho demorado e foi no shopping comprar algumas besteiras que estava sentido falta, na volta passou em uma lanchonete onde comeu um lanche rápido. Passou em casa apenas para deixar as compras e foi para o trabalho. O hospital em que trabalhava ficava perto do cento da cidade de São Paulo. Passou um dia calmo, apenas alguns casos de alguma urgência, mas nada mais do que um hospital tenha que enfrentar no dia a dia.

Era início da noite e o telefone celular da garota começou a tocar, era seu irmão. Ficou feliz que haveria um encontro, mas era bem distante do encontro apaixonante que ela sonhara em ter na volta de Adriano. Imagina ele ligando para ela, cheio de saudades, querendo abraçá-la e beijá-la. Julia sabia que era sonhadora, que aquilo só podia acontecer em filmes de amor. Disse que sairia mais tarde e que depois passaria no bar em que eles iriam se encontrar.

Os minutos da noite se arrastavam vagarosamente, Julia queria sair logo. Era pouco mais de 23h quando ela estava a alguns passos de colocar os pés na rua. O telefone tocou, ela não reconheceu o número, mas a voz foi arrebatadora. “Adriano?”, “Vou passar ai no Hospital pra te buscar em alguns minutos”. “Mas e a festa?”. “Fui eu quem começou, resolvi que era hora de terminar. Queria te ver em um lugar mais calmo”. O silêncio que durou menos de dois segundos pareceu uma eternidade para Adriano. “Ju?” “Oi... Ah... pode vir, estou te esperando.”
Juliana se sentou em uma cadeira perto da recepção do hospital. Seu coração batia forte, apertado, sem saber ao certo o que ele estava sentindo. “Ju? Aconteceu alguma coisa?” Era Marcela, enfermeira que trabalhava com Julia. “Não, tudo certo”. “Mas você não estava indo embora há uns 15 minutos atrás?” “Estava, mas a pessoa que eu ia encontrar. Está vindo me encontrar”.

“Mas porque você está com essa cara? Você passou o dia sorrindo e falando nesse amigo tão especial. Por que agora você fica com essa cara de quem não está a fim de sair?”. Julia concordava com a amiga, mas não sabia por que não conseguia se sentir como se sentia há algumas horas. “Não sei se vai dar certo”, Julia ainda tentava entender se aquilo era o que ela queria ou não. Havia deixado um namoro fazia apenas seis meses e a volta do jornalista mexia com a mente da garota. As duas trocaram mais uma ou outra palavra, quando Marcela precisou continuar o trabalho que estava fazendo.

Não demorou muito para que Adriano ligasse avisando que a esperava do lado na porta do hospital.

Julia não demorou muito para reconhecer a velha Malibu 1966, que era a paixão de Adriano e a única coisa que ele não se desfez quando viajou para a Europa, deixando o carro aos cuidados do pai, que cuidava do veículo como se fosse dele.

Ela entrou no carro e os dois se abraçaram longamente, as palavras eram poucas, mas os sentimentos eram muitos e, além de tudo, confusos. “Estava com saudades de você. De seu abraço”, foram as primeiras palavras de Adriano, sem saber ao certo se aquilo era o que deveria falar para a garota sentada ao seu lado. “Eu também, passei o dia esperando para encontrar você. Faz muito tempo desde a última vez que nos vimos.”

O motor V6 do carro acelerou suavemente enquanto o carro deslizava calmamente pelas ruas da cidade de São Paulo. Os dois conversavam alegremente, enquanto o garoto contava sobre suas aventuras na cidade da neblina. Londres ainda estava muito presente na forma de agir e pensar de Adriano, mas Julia via que aquele ainda era o simples menino que ela viu deixar o país com seu 23 anos recém completados.

Enquanto falavam tanto ele quanto ela se examinavam, relembravam dos cheiros e sensações que já haviam sentido um ao lado do outro. Ela estava com fome, esperava poder comer alguma coisa no bar, mas os planos mudaram de uma hora para outra. Adriano não queria ir aos restaurantes que ambos freqüentavam nos restaurantes do bairro italiano em que moravam. Foi assim que ele levou a garota para uma área onde sabia que poderia ter mais sossego, que poucas pessoas as reconheceriam.

A pequena cantina escondida nos arredores da Avenida Paulista agradou a garota, que adorava massas e, principalmente, os vinhos que acompanhavam a comida. Adriano escolheu um vinho tinto de mesa que caberia bem com o risoto com escalopes de filé mignon que ela escolheu, enquanto ele havia pedido penne com molho de queijo Emmental com medalhões ao funghi, seu favorito.

Depois do jantar, os dois caminharam lentamente em direção ao estacionamento, estava um clima agradável e os dois não tinham pressa para ver o final dela. Agora era ela quem estava contanto sobre suas experiências profissionais, quês muitas vezes estavam deixando o jornalista meio enjoado. Definitivamente medicina não estava entre as grandes aptidões do rapaz.

Os relógios da cidade já marcavam a primeira hora de um novo dia quando os dois finalmente tomavam o ruma de casa. Julia já demonstrava o cansaço de um dia de trabalho, mas se mantinha firme para que Adriano não achasse que ela havia se cansado da companhia dele.
Ele também estava cansado, mas queria aproveitar aquele momento ao máximo. Enquanto o rádio começava a tocar “Some Kind of Wondeful”, da banda norte americana da década de 1970, Grand Funk Railroad, o silencio da noite foi quebrado pela sirene das duas ambulâncias que passaram pelo carro dos dois em alta velocidade.

Aquele fato chamou a atenção de cada um deles de forma diferente. E Adriano tomou o cuidado de passar pelo possível caminho que os carros de resgate teriam feito. Sem saber que essa ação era exatamente o que Julia queria e que desencadearia uma série de fatos que mudariam aquela noite para sempre.

As luzes do resgate apareciam alguns metros a frente dos dois.