sexta-feira, 27 de março de 2009

Crise de Criatividade Social

Quando foi que nós paramos de mudar a sociedade em que vivemos? Uma pergunta difícil de responder em meio a tantas transformações culturais e sociais que vivemos nas últimas cinco décadas. Os avanços que tivemos nesse período permitiram uma produção cultural fantástica. Livros, discos, artes plásticas, a sétima arte e tantas outras. Criamos um mundo sem fronteiras para a criatividade. Porém, criamos uma sociedade incapaz de utilizar a décima parte da capacidade desse mundo. Em todas as áreas, o mundo dá preferência a tudo que não exige força demais, inteligência de mais, capacidade de observação, interpretação, etc, etc, etc...

Pete Townshend, guitarrista do The Who, é considerado a pessoa mais azeda do mundo rock. Ainda assim, aqueles que conviveram com ele no auge da banda, na década de 60, afirmam que ele começou a ficar assim nos últimos anos. Assim que finalmente resolveu comentar o assunto, a resposta dele foi a seguinte: “Quando meus amigos e eu começamos a fazer rock and roll, a coisa ia além de simplesmente sermos famosos. Éramos poucos, mas tínhamos a capacidade de mudar o mundo e nós conseguimos mudar. No entanto, tínhamos que viver no limite para conquistar essas coisas. As pessoas adoravam isso. Hoje, todos esses meus amigos estão mortos. Sou um dos últimos de uma geração fantástica. Hoje, olho ao meu redor e vejo que nada parecido com aquilo deve acontecer com a nova geração”.

É compreensível que alguém que tenha vivido o que ele viveu fique desgostoso ao ver tamanha futilidade que cresce a cada dia entre os jovens de hoje. Saímos de uma época onde todos pensavam de uma forma igualitária, para entrar em uma era onde os jovens são cada vez mais individualistas, egoístas e antisociais. As músicas de antes falavam de como podíamos ser melhores, de como juntos éramos mais fortes, como o mundo precisava mudar para melhor. A arte, independente do tipo, nos deu força para vencer ditaduras, guerras e desigualdades sociais. Realmente, eles eram capazes de mudar o mundo. Aquela geração foi capaz de incomodar com o silêncio de um quarto branco da cidade de Amsterdã e com a incrível reunião de jovens daquele verão do final da década de 1960. Onde todos lutaram pela paz e pelo amor, sem nenhuma outra arma que não fosse paz e amor.

Exatamente meio século depois da morte de Buddy Holly, o pioneiro do Rock and Roll, a faísca que deu origem a essa geração incrível, não vemos uma sociedade que será capaz de recuperar a vontade de mudar que já houve antes. Isso independe de escola, educação, dinheiro ou qualquer outra coisa. Falta caráter, coragem e a vontade de fazer a diferença. Optamos pelo comodismo de aceitar tudo, diante da opção de continuarmos aquilo que Holly começou. “Transgredir” como as gerações do Rock, é evoluir conforme passam as areias do tempo de nossas vidas. Os adolescentes de hoje não conseguem se adaptar as dificuldades que a vida lhes apresenta, culpam todos ao redor e decidem e fogem da responsabilidade que todos temos sim, tentar mudar o mundo. Para eles transgredir é fumar maconha porque é moda, queimar índio, bater em velho, destruir as casas dos outros, matar impunemente, encher a cara para se sentir melhor que os outros e bom o suficiente para fazer tudo que a nada leva.

Para mudarmos o mundo precisamos nos libertar da prisão ociosa criativa que nos colocamos. Assim, quem sabe um dia, voltaremos a escrever como nossos heróis um dia morreram na overdose da criatividade social.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Reencontro

Ele manteve a cabeça inclinada para a esquerda, enquanto observava as estrelas que iluminavam aquela noite quente da capital paulista. Era difícil acreditar que em uma cena daquelas, vista da sacada de um prédio localizado em um local com tanta poluição. Tomou um gole do vinho tinto seco argentino que já havia degustado algumas vezes durante a noite. Eram quase 4h da madrugada e ele ainda não tinha conseguido pregar os olhos. Desde quando aquilo estava assim? Não se lembrava da ultima noite em que realmente descansou mente, corpo e alma.

Virou de costas para a cena, recostando-se na grade. Na cama, o espaço que antes era ocupado por um amor para a vida toda, jazia vazio. O perfume do aconchego dos braços da mulher amada podia ser sentido de longe. Como eram bons os carinhos que antes eram parte indispensável de uma noite de amor, como as que tiveram tantas vezes. “Como seria a paisagem que ela vê de lá?”, pensava enquanto sorvia um último grande gole do que restava do líquido bordô dentro da taça.

Vivia um paradigma que lhe incomodava constantemente. Quando dormia, respirando o perfume impregnado nos lençóis da cama, podia estar com ela outra vez. Seus sonhos eram o máximo de realidade que vivenciaria com aquela mulher, que realizara todos os sonhos apaixonados que ele poderia ter na sua vida mundana. Eram momentos sublimes, que ele preferia não lembrá-los apenas como lindos sonhos. Era duro e triste imaginar que nunca mais a teria em seus braços. Ao mesmo tempo, cair nos braços de Morpheus era sentir uma dose da dor que apenas aqueles que realmente amaram como ele poderia sentir. Lembrar que aquilo que o separava da pequena garota, que conheceu em um dia quente nas ruas do Bairro da Mooca, era mais forte que qualquer simples desejo de um coração humano.

Esse coração, nunca sofrera por um amor assim, ela tinha sido a mulher que qualquer homem faria de tudo para ter. Seus olhos castanhos claros, um rosto de uma beleza infantil – que escondia a mulher que ela realmente era -, seu corpo com curvas precisas – podia não ser perfeita, mas era de um deslumbramento indiscutível - e sua voz encantadora. Muito nela havia mudado com o passar dos anos, mas nada o faria deixar de amá-la. Ele mesmo sabia que não era mais o mesmo. Ele estava cansado, caminhou vagarosamente até a cama. Lembrou dos anos em que ele também teria sido o caminho da perdição de tantas outras mulheres.

Aquelas décadas vividas finalmente pesavam na alma, que se negava a acompanhar o mesmo ritmo do corpo. Já havia conversado por algumas horas com seus dois filhos. Almoçou com eles perto do escritório onde eles trabalhavam. Chorou ao lembrar-se de bons e de maus momentos, hora rindo, hora depressivo.

Foi até a cozinha. Tomou um bom copo de água gelada. Respirou o ar da noite que entrava pela janela aberta da área de serviço. Aquele apartamento era grande demais apenas para ele, mas os filhos queriam que ele ficasse confortável. Voltou para o quarto e deitou-se na cama lentamente, sentindo cada osso repousar sobre o colchão. A respiração era lenta, mas aquecia os pulmões. Adormeceu suavemente, enquanto abria um sorriso como há anos não se via. As mãos dela envolveram suavemente a cabeça, acariciando novamente a nuca dele. Aos poucos ela o levantou de seu leito de sonhos, para viver ao lado a lado com seu amor, deixando o velho corpo daquele senhor para um mundo material que para eles não fazia mais sentido.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Duck Tales - Os caçadores de Aventuras

Quem nasceu em algum momento da década de oitenta com certeza já acordou um dia de manhã e passeou por canais de desenhos animados um tanto quanto desanimado, pela porcaria que se tornou o mercado de animação. Os últimos desenhos que de alguma forma foram inteligentes e bem estruturados foram “Freakazoid” e, mais moderno, “Bob Esponja”, que segue o padrão esdrúxulo/estranho que alguns desenhos mais antigos tinham. Quer algo melhor que uma esponja que come os próprios braços em uma tijela? Como se fossem salgadinhos! Ainda assim, dificilmente eles serão capazes de bater outros cartoons como: Tom e Jerry, Pantera Cor de Rosa, Pica Pau, Papaléguas, Tazmania, Caverna do Dragão, Pernalonga e companhia limitada.

Uma época onde os desenhos tinham a função de aguçar nossa criatividade positiva e nos proporcionar momentos de risada e boas lembranças para serem divididas nas mesas de bares. Lógico, tivemos a gloriosa companhia dos personagens da DC Comics e Marvel, mas esse será outro post. Com todo respeito, até mesmo “Capitão Planeta", que era bem ruim, era melhor do que “As Meninas Super Poderosas”.

Ainda assim, de todos esses desenhos, um deles marcou minha infância, de meu irmão e posso afirmar que de muitos outros, de forma inacreditável. “Duck Tales – Os caçadores de Aventuras” é a série de maior sucesso já produzida pelos estúdios Walt Disney. Exibida inicialmente entre 1987 e 1990, chegou ao Brasil em 1988, pelas mãos de Silvio Santos, sendo exibido no SBT até 1995. Com 100 episódios e um filme, foi o seriado mais longo produzido pela Disney.

Era impossível não vibrar tardes inteiras com as aventuras de Tio Patinhas, o pato mais rico do mundo, e seus três sobrinhos: Huguinho, Zezinho e Luizinho. Sempre acompanhados de outros personagens incríveis como: Capitão Bóing, Leopoldo, Pato Donald, Professor Pardal, Madame Patilda, Patrícia, Margarida, Gastão e outros tantos companheiros. Sempre tentando vencer a batalha contra os Irmãos Metralha, Pão Duro Mac Money, Maga Patológika, El Capitán e outros tantos.

Mesmo quase uma década depois de sua última exibição em TV aberta, “Duck Tales” é um dos desenhos mais influentes quando o assunto é enredo interessante, criatividade, tramas diferenciadas e desenhos que nos transformam em crianças novamente.

Abaixo está a abertura do programa e os links para as três partes do primeiro capitulo da série. Seguem também os links para quem quer comprar os dois DVDs triplos, que contém todos os episódios da série. O produto é importado, por isso é um pouco caro, mas vale a pena se você for um fã de verdade.

CAPÍTULO 1 - Parte 1/ Parte 2/ Parte 3

DVD 1 / DVD2

Respeito é bom e ela gosta

Já diria a minha avó, quem sabe, minha bisavó: “Pior cego é aquele que não quer ver”. Nosso querido presidente começa a aceitar que deveria enxergar a crise financeira com mais cuidado. Para ele se tornou muito cômodo afirmar que o Brasil está acima de tudo e de todos, que nós não criamos a crise e, sendo assim, temos que deixar que seus criadores arranjem uma forma de resolver. Logo no começo dessa semana ele afirma que nosso país “não quebrou e nem vai quebrar”. Antes que me chamem de louco, retardado ou qualquer acusação diversificada, sei que ainda acordo todos os dias para trabalhar porque o Brasil ainda está financeiramente vivo.

Ainda assim, devo afirmar que, há algum tempo o Lula tem ignorado uma crise que tem sim influenciado negativamente o dia a dia de todos que habitam nossa nação verde amarela. Lógico que quando o ministro Mantega chega a público e também afirma que o Brasil tem uma bala na agulha, temos que confiar nas pessoas que controlam o nosso “departamento financeiro”.

Como diriam os freqüentadores de programas de auto-ajuda: “Admitir o problema é o primeiro passo”. O fato de o presidente apresentar planos para superar a crise, demonstra que ele resolveu aceitar a existência dela. Ainda assim, banalizar a mesma, de forma a relevar sua influência é perigoso. Por mais que você tenha centenas planos para resolver seus problemas financeiros, é sempre aconselhável evitar que sua conta chegue ao vermelho.

Não duvido que Lula tenha cartas na manga e esteja planejando as diversas formas de contornar a situação, ainda assim, é preciso demonstrar um pouco mais de respeito. Corremos o risco de ver os Estados Unidos levantarem mais fortes do que nunca, com seus diversos planos de reforma econômica. Enquanto nos vemos ficar estagnados e sem rumo político ou financeiro.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Um Romance em Cinco Partes - Capítulo V

Capítulo 5

Adriano não tinha idéia se aquilo iria funcionar, mas ele sabia que era sua única salvação. Entrou pela pequena rua que levava a uma das casas mais caras da região e andou junto ao muro. As roupas escuras emprestadas por seu mais novo companheiro de trabalho faziam com que ele sumisse por completo das vistas mais desatentas. A escuridão ainda não era plena, mas logo, ninguém saberia que ele estava lá, esperando pelo sinal.
Seu telefone vibrou uma vez e ele saiu em disparada para o seu destino. Se arrastou pelas areias da praia. Sacou a arma do coldre e garantiu que estava destravada e carregada, nunca tinha feito aquilo na vida, mas utilizava todo o conhecimento acumulado nos cinemas para “surpreender o adversário”. Apesar da tensão, ele quase não conseguiu segurar a risada ao pensar o quanto estressante, porém patética, era a situação.
Enquanto Adriano ainda ensaiava sua invasão, Dimitre já se esgueirava pelos cantos da mansão da família Albuquerque Lima. Buscava duas coisas, seu dinheiro, a garota e alguma coisa que garantisse a reportagem do garoto sem depender de uma fonte que nem existia oficialmente. Tinha de fazer tudo sozinho e torcer para que a distração durasse tempo o suficiente. Na verdade, torcer para que Adriano saísse de lá vivo.
A casa era grande, mas tinha pouca segurança. Apenas cinco homens garantiam que todo o jardim ficasse seguro. Dois guardavam as entradas principais e um ficava de olho nas câmeras que guardavam as salas mais importantes. Nada que Dimitre não pudesse passar sem levantar suspeitas. Sua preocupação eram as câmeras, tinha que achar a sala e incapacitar aquele guarda. Parte do trato com Adriano era que ninguém morria, a não que fosse imprescindível.

II
Na suíte principal da casa, João aguardava com calma a notícia pelo computador, sabia que o amigo iria querer ver sua amada em segurança. Sim, o homem sentia-se mal por tudo que estava acontecendo. Na noite anterior, achou que o amigo se contentaria com sua versão do caso.
Quieto, ele foi ao quarto do lado e destrancou a porta. Abriu vagarosamente e encontrou Julia deitada na cama de casal. Depois de horas de choro ela havia finalmente silenciado. Pela primeira vez, o policial se perguntava se poderia cumprir o informado por telefone. Há quatro anos ele assumira os negócios da família, mas nunca esteve tão perto de matar alguém que realmente considerava um amigo. Julia fazia parte de amigos de anos e anos. Não era nem de longe apenas mais uma conhecida.
Chegou um pouco mais perto e admirou a beleza da menina. “Como ele tem sorte de ter amor dela”, pensou sobre Adriano. Deu meia volta e deixou o quarto sem trancar a porta, ela não iria longe com as mãos e os tornozelos amarrados e os olhos vendados.
Quando a porta fechou a menina acordou e sentiu um perfume conhecido, mas se manteve quieta e voltou a dormir. Estava exausta e queria voltar a sonhar com Adriano.

III
Fora da casam Adriano começou a andar vagarosamente pelo jardim. Via dois dos guardas do jardim. A sua frente, a porta dos fundos estava sem nenhum vigia fixo. Era um convite para qualquer intruso, mas algo de estranho havia naquilo tudo. Olhou ao redor e enxergou um conjunto de pedras e se arrastou até lá. Chegando lá, percebeu que o homem que guardava aquela porta se escondia perto de uma das pilastras da sacada.
A noite avançava e Dimitre acomodava o guarda das câmeras em um canto da sala. Desarmou os alarmes do cofre. Encontrou tudo que precisava pelas telas, menos a localização da menina. Quando ia sair da sala, viu João deixar o quarto em que estava Julia. Seguiu o rapaz e enfim, foi em direção do quarto, mas antes de chegar lá um problema: Adriano havia sido capturado antes do esperado.
Era hora de agir com cautela.

IV
“Chefe. Pegamos o invasor”
João entrou no quarto, viu a cabeça baixa encapuzado do assassino de aluguel. “Não é fácil me enganar. O que mais me intriga é: por que usar uma arma com tranqüilizantes? Mesmo sendo doses para derrubar um boi por horas”. Nenhuma resposta.
“Quero ver sua cara a me ver triunfar mais uma vez”, a voz do policial feriu profundamente a alma do homem que estava ajoelhado a sua frente. João puxou o capuz ao mesmo tempo em que dava as costas ao intruso.
“Você está com o cara errado”, foi a vez do coração do homem mais velho acelerar. Quando se virou o rosto de Adriano dilacerou a autoconfiança de quem até então era dono da situação. “Responde-me uma coisa, só uma. Por quê?”
“Adriano...”, a voz dele falhou. “O que você está fazendo aqui?”, perguntou retomando o autocontrole.
“Vim atrás de respostas e ainda não obtive a primeira delas”, disse olhando fixo para os olhos do amigo. “Por quê mandou matar aqueles dois? Qual o motivo de você mudar de lado?”
“Bom, você não vai muito longe mais. Minha família sempre controlou o fluxo de armas dentro do governo. Nós sempre fomos os negociantes do poder armado desse país”, começou. “Há anos que minha família trouxe as primeiras caixas de armamentos para os primeiros exércitos formados pelo rei Don João VI, no Brasil. Sempre figuramos em algum lugar na história de tudo que nossos conterrâneos fizeram. Revoluções, tráfico, guerras, missões especiais. Sempre tentaram nos cortar, sempre conseguimos voltar. E assim, no primeiro ano em que eu assumo o controle dos negócios, aquele oficialzinho de merda resolve dar ouvidos para as forças armadas dos Estados Unidos”.
Adriano escutava atentamente cada palavra.
“Ela não era nenhuma cientista. Ela era da inteligência militar norte-americana. Estava aqui para indicar quem era quem no nosso esquema. Descobrimos quando seria o próximo encontro deles e demos um fim nessa coisa de ferrar com a nossa família, meu pai e meus tios nunca me perdoariam por acabar com tudo que nossos ancestrais construíram”.
“Eu sempre confiei em você. Achava que pessoas como você era o que o país precisava, mas estava errado”, Adriano olhava dentro dos olhos do amigo.
“Tragam a garota”. João ficou na sala com mais um segurança. “E agora? Não posso deixar você ir”. O amigo se ajoelhou a frente do outro e ficou em silêncio. “Já percebi que você não consegue ficar com a boca calada. Tem que ficar falando um monte de besteira”.
“Falo somente a verdade”.
“A verdade? Você ainda não sabe nem da metade do que eu sei. Tenho nomes arquivados, contatos, pessoas que vão do alto escalão do governo ao alto escalão do tráfico. Você nem imagina”.
Nesse momento a porta se abriu e um dos homens de João entrou correndo. “Senhor, os outros estão mortos e a menina não está no quarto”. O traficante ficou irado e se levantou em um pulo, mas antes que pudesse dar qualquer ordem, ouviu um tiro e seu capanga caiu morto.
Em um estado de raiva e desespero ele olhou para o amigo e enviou seu último ‘cão de guarda’ atrás de quem estava tirando o que havia lhe sobrado de paciência. Por alguns segundos o silêncio só era quebrado pela respiração pesada e ofegante do traficante de armas, que olhava para uma estante com fotos da família. “Estamos sozinhos aqui, não preciso mais fingir. Não quero matar um amigo de infância”, a voz de João saiu quase inaudível, enquanto ele se virava para o amigo.
Adriano rolou para o lado aliviando o peso que a horas estava concentrado sobre o joelho. “Temos um problemão então. Você me mata ou me solta, em qualquer uma das opções você perde. Na primeira um amigo, na segunda, a moral, a família, respeito e todo resto que você não queria perder quando mandou assassinar aqueles dois”.
“Se você fica calado, sai da casa com vida e eu, milionário. Acho que é uma boa forma de ficarmos quites. Cada um perde um pouco, você perderá mais, só que discutir com alguém armado não é nada esperto”, João sentou-se nos degraus que levavam ao mini-bar que ficava em um dos cantos da sala, de frente para Adriano.
“Solte-me, se eu correr você atira. As cordas estão apertadas”.
João se levantou lentamente e foi se arrastando para o trás do amigo. As cordas caíram em duas partes.
“Vá...”, a voz de Albuquerque saiu firme, porém triste.
“Vamos junto, ajuda a polícia que eles aliviam pra você”.
“Rss... Aliviar? Eles vão dar cabo de mim antes que saia do controle. Eu sou apenas mais um no comando. Eles não vão permitir que isso acabe. Toda família vai cuidar para que o negócio continue. É você quem pode resolver isso. É você quem pode acabar com esse negócio de merda que minha família começou”.
“Preciso de você como fonte. Você pode me ajudar”.
“Toda ajuda que você precisa está no meu escritório”.
“Isso já deve estar na mão de outra pessoa nesse momento. Você acha mesmo que eu iria entrar aqui sozinho? Que seus capangas morreram por um triste ação do destino?”
“Eu sei que não. Por isso sei que fiz tudo certo para que hoje fosse o início do fim. Minha família sempre me odiou por entrar na polícia, por que sempre quis fazer a justiça. Fingir que estava com eles era errado, mas era a forma correta de agir. Não podia falar isso na frente de alguém, se esse momento chegasse, precisaria estar no comando para acabar com os negócios”.
“Como assim, isso é tudo mentira?”, berrou Adriano.
“Das boas né? Melhor do que qualquer uma que você poderia contar em seus jornais”.
“Você sabe que não faço isso”.
“Logo chegará o momento em que você verá que o erro é melhor caminho. Eu percebi isso, agora, pago com a única coisa que ainda me pertence”.
Nesse instante uma bala atravessou a sala atingindo a cabeça de João. Adriano correu a tempo de aliviar o choque de um corpo sem vida com o chão. O sangue escorreu pela mão que apoiava a cabeça. As lágrimas corriam o rosto do jornalista, nunca poderia chorar a morte de um assassino, mas de um amigo que se confessa no último minuto e deixa em suas mãos a verdade a ser contada.
Os passos a suas costas pararam alguns metros antes.
“Ele planejou tudo. Todas as entradas, falhas de segurança, tudo que podia dar errado ele fez acontecer. Não entendi o porquê alguém poderia me contratar para matar a ele mesmo. Para isso ele disse que eu deveria me provar justo. Na hora eu não consegui entender como alguém como ele pede para ser morto por um assassino justo”.
O silêncio correu todos os cantos da sala.
“Ela está bem?”
“Está sim. Deixei-a com todos os dados que você precisa em um carro azul no centro da cidade. Dei uma dose de calmantes para ela não acordar e querer fugir por ai. Aqui estão as chaves do veículo, um ‘remédinho’ - que irá acordá-la na hora que você aplicar - e o dinheiro para as despesas do hotel. Cuidar de você fazia parte do meu ‘contrato’, cumpro acordos, mesmo depois de matar meu contratante”.
“E você vai pra onde?”
“Por ai”.
O erro é melhor caminho. Hehe. Ele era bom” – pensava o garoto enquanto olhava para o corpo do amigo. “Vai fundo então. A gente de vê?”.
“Acho que não.”
Os dois apertaram as mãos. E seguiram seu caminho.


V
Quando acordou dois meses depois de tudo aquilo, Julia ainda não acreditava como sua vida havia mudado. Ao ver o rosto de Adriano, quando abriu os olhos dentro daquele carro, a única reação que podia ter era beijá-lo longamente. A partir daí os dois viveram dias incríveis, interrompidos apenas para que ele concluísse seu trabalho. A reportagem lhe renderia prêmios e um lugar como repórter especial do jornal.
Encontrou com Adriano na sala, tomando café e vendo o jornal.
“Oi amor, por que você não me acordou?”
“Era cedo, você tava dormindo tão tranquila que achei melhor deixar assim”, disse beijando-a, mas sem tirar os olhos da televisão.
Julia foi até a cozinha.
“Você viu que tem uma carta para você aqui? Vem da França”.
“Não conheço ninguém lá. Traz pra mim Ju”.
Ele tirou um papel de dentro do envelope onde leu:

“O erro é melhor caminho”
Quer uma história nova Sr. Jornalista?
Qualquer coisa, te espero em frente àquela pirâmide de vidro que fica no museu do Louvre, sabe qual é? Hehehe...
Abraços,
Dimitre.
Ps: Cartas são mais charmosas que os e-mails.

terça-feira, 3 de março de 2009

Um Romance em Cinco Partes - Capítulo IV

I
“Como assim. Ele simplesmente te ligou afirmando ser um dos assassinos da noite passada? Como ele pode ter seu telefone?”, mesmo para Pedro, aquilo era demais. “Ele matou dois militares, com um segurança e um motorista, que não era nem um pouco besta. Conseguir entrar em contato comigo deve ser passa tempo de final de semana. Fato é, ele disse que o mandante tentou dar cabo dele, através do comparsa, que pelo visto, ferrou a cena para que acontecesse isso. Alguém publicar que aquilo tinha sido planejado”. A cara do amigo editor ainda não mostrava total confiança naquilo, era surreal de mais, mesmo se tratando de Adriano. “Ainda assim não entendi por que ele te ligou”, perguntou o amigo incrédulo.
“Como ia dizendo. Ele teve que se livrar do outro assassino, que tentou matá-lo. Acabou que ele ficou vivo e o amigo, pero no mucho, dele caiu mortinho. Nesse caso ligar pra polícia não resolve nada, só piora, mas ele precisava de uma cara pra ajudar a resolver o problema dele. Quem melhor que um jornalista que precisa provar pra todo mundo que não é retardado, nem que ele inventa histórias pra se dar bem”. Enquanto Adriano terminava sua linha de raciocínio, Pedro servia duas doses de Whisky para eles. Um Jack Daniel’s, que ele guardava para os dias difíceis, como aquele, que tinham mais que 24h, quando não passavam das 24h seguintes.
“O que você vai fazer?”
“Bom, ninguém da polícia ou do exército veio me procurar. O que já é algo estranho, mesmo não trabalhando para vocês e podendo escrever a notícia de qualquer lugar no mundo. A redação do jornal seria um bom começo para me achar”, os dois abriram dois leves sorrisos.
“Você não me respondeu”, o amigo já estava ficando bravo, ou preocupado, sabia que o silêncio e o sorriso que brotava no rosto do amigo só podiam ser encrenca.
“Tecnicamente, ainda não sou empregado de vocês e não serei nunca, a menos que seu amiguinho, dono do jornal, saia ganhando nessa história. Não me restam muitas alternativas, vou encontrar com esse cara, no local que ele mencionou”.
“Não posso deixar que você faça uma coisa dessas!”, gritou Pedro se levantando em um susto. Adriano mantinha seus olhos fixos nos do amigo, tinha certeza de que a voz no outro lado da linha precisava da sua ajuda e que ele teria seria pago em histórias, boas histórias. O jornalista levantou-se, apoiou os punhos fechados na mesa do amigo, inclinado o corpo para frente. “Eu vou. E você não pode fazer nada pra me impedir”. Antes que Pedro respondesse o telefone tocou. Ele conversou com o chefe da recepção por alguns segundos, olhando fixamente para o amigo. O telefone tocou o gancho e o editor quebrou o silêncio. “Os caras de verde estão ai. A saída dos fundos é pouco utilizada. No último andar subterrâneo você vai encontrar o meu carro. É um Vectra novinho, meu bem mais valioso. Tem uma saída, pela rua de trás, a chave é essa”, disse estendendo um pequeno molho e a chave do carro.
“Onde será esse encontro?”, perguntou antes que a chave fosse pega por Adriano. O amigo passou o endereço em um pequeno papel e colocou no bolso da camisa do rapaz a sua frente, tomando-lhe as chaves. “Vou segurar o pessoal o máximo possível, mas não posso fazer nada de ilegal. Se você não entrar em contato comigo no máximo a cada 3 horas, falo pra polícia onde você estará”.
Adriano disparou pela redação do jornal atingindo os elevadores de serviço, que não tinham acesso pela recepção do jornal, apenas pelo estacionamento. Quando chegou ao segundo andar do subsolo apertou o botão do alarme e seguiu o som emitido pelo automóvel. Andou meio agachado na esperança de que ninguém percebesse aquela figura no mínimo suspeita. Entrou no veículo e saiu sem ninguém dar conta.

II
“Como assim ele foi embora?!”, discutia o soldado que deveria levar o jornalista para julgamento.
“Ele escreveu a reportagem. Ficou por aqui um pouco e foi embora. Não disse para onde ia. Recomendei que ele ficasse de prontidão para atender a justiça brasileira que, como vejo, está tentando salvar a pátria”. O tom de ironia no final da fala do editor deixou o soldado inquieto, mas não podia demonstrar alteração, ele tinha que ficar no controle.
“Você é o chefe dele. Quem libera as reportagens por aqui. Ele tem que ter lhe contado alguma coisa”, insistiu o homem de verde.
“Nada. Nós confiamos em nosso repórteres. Cada com suas fontes. Se o histórico profissional for positivo, vai pro ar, por mais absurdo que seja”. Pedro se mantinha olhando fixo para os três homens que ocupavam o pequeno cubículo. “Não quero criar problemas para vocês ou para meu amigo. Se souber alguma coisa dele, vocês também irão ficar sabendo”. Sem dizer nada os três oficiais deram as costas e saíram da sala.
Assim que eles entraram no elevador, Pedro retirou o papel dobrado do bolso. Para sua surpresa, não era exatamente um endereço ou um destino que estava olhando de volta do papel. “Ligo assim que conseguir. Pode ficar tranquilo. Cuida da Julia e da minha família”, ele sentou e virou a dose que restava dentro do seu copo, quando se deu conta que Adriano tinha tomado a dele antes de sair. Começou a rir ao se lembrar do amigo.

III
Adriano encheu o tanque no primeiro posto encontrado. Ligou o rádio, por sorte os gostos musicais dos dois continuavam bem afinados. B.B. King tocava sua Lucille enquanto ele acelerava destino a Ilha Bela.
Longe dali, em um Hospital da cidade de São Paulo, ninguém deu conta da falta da médica simpática, que gostava de conversar com os pacientes, até que uma emergência apareceu e nenhum médico veio atender o paciente. Em um utilitário esportivo, dois homens garantiam que a morena de pele clara e olhos azuis ficasse calada.
Ao mesmo tempo, um homem descia da balsa que liga o continente a uma das ilhas mais bonitas do Brasil. Sem levantar suspeitas, entrou em um taxi e pediu para que o levasse a uma das pousadas mais afastadas do centro. Na mochila trazia a esperança de que seu futuro novo parceiro fosse realmente muito esperto.

IV
Adriano descia a serra o mais rápido possível, há algum tempo que ele não utilizava as estradas do Brasil e não sabia o estado em que elas se encontravam. Nesse momento seu celular tocou, ao atender ele reconheceu a voz do assassino de aluguel. Dimitre teve pouco tempo para contar tudo o que queria.
“Acho que tem alguém querendo te deixar com raiva. Eles já sabem que estou vivo, já sabem de sua reportagem e já tem uma pessoa para te desestabilizar”, a voz grave e seca incomodou os ouvidos do jornalista.
“Quem eles pegaram?”
“Uma garota. Jovem, bonita, pele clara e olhos azuis” A descrição apertou o coração do rapaz. “Sei que eles esperam por mim, mas não sabem que nós estamos juntos nessa. Eles irão nos pegar com planos diferentes. Siga minhas ordens e nós sairemos dessa juntos, cada um com o que deseja. Você com sua mulher e sua matéria e eu com meu dinheiro”.
“Não posso colocá-la em risco”.
“Simplesmente não atenda ao telefone, deixe como está. Se encontre comigo do outro lado da balsa, mas venha a pé. Encontre com um taxi com a placa CZO-2732. Ele sabe onde te levar”.
Ante que Adriano pudesse dizer alguma coisa, o telefone ficou em silêncio. O rei do blues seguiu tocando solo até o final da viagem. Havia muito mais em jogo do que apenas a carreira de um jovem jornalista. A única pessoa que ele amou em toda a vida dependia do acerto dele e de um louco de aluguel. Minutos depois, recebeu uma última mensagem com o nome pelo qual deveria procurar na recepção do hotel.

V
O sol da tarde batia nas praias do litoral norte de São Paulo quando Adriano finalmente entrou no taxi em Ilha Bela. O homem não disse nem uma palavra até o ponto de encontro dos dois. Finalmente, ele estaria cara a cara com o homem de quem havia falado na reportagem. Também percebeu que já era tarde de mais e, pela primeira vez na vida, teria de se juntar a um assassino para terminar aquela história como esperava.
Fez tudo como Dimitre havia pedido. Mal podia acreditar que estava confiando plenamente em alguém que nunca virá antes, em alguém que poderia acabar com a sua vida em um segundo.
Bateu na porta e esperou que a mesma se abrisse. Ainda assim, quando isso aconteceu, parecia não haver ninguém do lado de dentro. Quando começou a empurrar o resto da porta para enxergar melhor, uma mão puxou seu corpo para dentro do quarto. Ele foi prensado contra a parede e rapidamente revistado, sem nem ao menos conseguir ver o rosto do homem que o segurava com muita competência. Finalmente foi solto e a voz que falava ao telefone ganhou um rosto. Uma face no mínimo diferente do esperado, mas que transmitia os vários trabalhos já realizados pelo assassino.
“Ao menos, chegaste vivo”. Antes que Adriano fizesse a primeira pergunta, Dimitre continuou. “Eles ligaram? Quem é ela e como eles sabem que ela importa para você?”
“Não enquanto tive sinal ou bateria. Nós saímos na noite em que essa zona começou”, disse com vontade de que tudo tivesse sido diferente.
“Tome, o meu celular é da mesma marca que o seu. Só uma noite. Não faz sentido”.
“Ah! Alguns amigos mais chegados saberiam que nós sempre tivemos uma queda um pelo outro, mas isso foi há alguns anos”.
“E esse cara lhe é familiar?”, perguntou Dimitre estendendo uma foto, que para surpresa do rapaz, era do amigo policial, o Jão.
“Sim, ele que deve estar investigando esse caso”.
Dimitre riu. “Não, ele deveria ser o investigado. Quem mandou matar aqueles dois na noite passada foi esse cara. Qual é o nome dele?”
“Jão, ou melhor, João”, disse Adriano incrédulo. “Mas não pode ser, por que ele faria isso? Ele sempre foi meio pirado, mas a família dele sempre teve dinheiro. Ele não precisava disso”.
“Será mesmo que não precisava? Será que a família não precisou disso sempre?”
Aquilo era o mundo desmoronando para Adriano.
“Nem sempre nós podemos confiar em quem conhecemos. Não importa o tempo”.
“E como posso confiar em você então?”
“Simples, sou sua única escolha. Sua maior esperança é o culpado, você é um foragido da justiça e sou o único que sabe da verdade sobre tudo”
Nesse momento o telefone tocou. Adriano levantou e atendeu. Alguns minutos depois desligou o telefone apreensivo. Ele tinha 12h para assumir que tudo não havia passado de uma grande invenção.
“Dá tempo, apenas faça tudo que eu mandar”