terça-feira, 25 de maio de 2010

Contos e Crônicas da Vida Moderna: A resposta sem pergunta

João era uma pessoa comum, com um emprego normal, um nome nada diferenciado, uma vida igualmente sem graça e uma aparente incapacidade de se adaptar a um mundo que um dia venha a ficar sem tecnologia. Fato comprovado por ele mesmo em um dia em que perdeu a chance de fechar um grande negócio, terminou um relacionamento e chegou atrasado a diversos outros compromissos, devido ao que ele chamou de “mau funcionamento do seu aparelho celular”. Um equipamento capaz de realizar inúmeras tarefas, menos funcionar sem que a bateria fosse devidamente carregada.

Aparentemente, só havia uma coisa na vida de João que o fazia diferente de todas as pessoas, ou quase todas. Ele tinha certa obsessão por um determinado número. Um número e uma teoria. Que ele havia encontrado ainda jovem quando leu pela primeira vez o livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias”. Um dia de sorte para ele, era descobrir mais uma pergunta qualquer cuja resposta poderia ser 42. Afinal, poderia então, estar mais próximo de descobrir a resposta, ou melhor, a pergunta definitiva para o “A Vida, o Universo e Tudo Mais”. Cuja a resposta era 42.

Desde então ele passou a registrar mentalmente e em um pequeno caderno, toda e qualquer pergunta que podia de alguma forma, ter como resposta o nº 42. Algumas vezes ele falhava, como o dia em que se perguntou “quantos nomes diferentes sua mãe poderia ter lhe dado?”. Para sua infelicidade, ele não conseguiu escolher entre Antonio e Josenildo e preferiu fingir que essa pergunta nunca existira a admitir que a resposta fosse 43. Seguia assim, uma vida cheia de perguntas e uma resposta bem definida, mas nada realmente fazia a diferença e João simplesmente ia vivendo.

João tinha criado sites, grupos de discussão, teorias da conspiração e tudo mais. Nada escapava a seu olho. O ápice da paranóia havia sido mover mundos e fundos para se mudar para o apartamento 42, de um prédio de nº42, no centro da cidade. Infelizmente, ele não havia encontrado nenhum apartamento de 1942 em condições de ser habitado. Recentemente, João estava tentando criar um calendário maluco onde cada ano teria 42 meses de 42 dias, divididos em 42 horas cada. Porém, a descoberta de que isso incluía alterar as datas do passado, futuro e presente de todo o Universo como conhecemos, ou imaginamos conhecer, fez com que ele colocasse o projeto na gaveta. Isso também o fazia se contentar em reajustar seu próprio relógio para marcar um dia de 42 horas, de 42 minutos cada hora, compostos por 42 segundos, de forma equivalente a um relógio comum. E, logicamente, uma forma fácil de converter isso para o tempo comum em uma conversa com pessoas que ele consideraria “menos esclarecidas”.

A família de João já havia se acostumado com tamanha insanidade. Aliás, ficava surpresa que ele conseguia tamanha sanidade, ou fingimento, no dia a dia, fazendo com que quase ninguém percebesse a excentricidade proveniente do rapaz. Nem ligavam quando ele fazia uma piada dizendo que um banco 30 horas não lhe servia de nada. Ou mesmo quando ele passava pela sala berrando que estava atrasado para o compromisso das 26h21.


Aquele dia havia amanhecido estranhamente claro naquele planeta nos confins inexplorados da região mais brega do universo. João estava de folga e pensando nas mais improváveis perguntas sobre “A vida, o universo e tudo mais”. Para ele, as últimas 84 horas haviam sido muito produtivas e a resposta para a pergunta fundamental estava muito mais próxima do que ele podia imaginar quando lera o livro pela primeira vez.

A rua para qual havia mudado era muito calma, tendo como freqüentadores não mais que alguns carros por dia, muitos deles de pessoas que moravam naquele logradouro, e alguns poucos caminhões. Geralmente de mudança. Ao sair de seu apartamento naquele dia, sua empolgação em relação ao que se passava pela sua mente era tamanha, que nem se lembrou de olhar para os lados quando foi atravessar a rua. Naquele mesmo momento de estranho alinhamento cósmico, um motorista descuidado tentava entender onde ele estava geograficamente, num mapa da cidade virado de ponta cabeça. O acidente foi inevitável.


Eis alguns dados que, por ventura, João gostaria de ter tido conhecimento naquele instante: desde que havia saído pela portaria de seu prédio, João havia dado exatamente 42 passos. Aquele caminhão era nada mais, nada menos, que o 42º caminhão a passar pela rua naquela semana. Josenildo Antonio, o motorista perdido, tinha 42 anos, odiava seu segundo nome e pelo relógio de João, estava 42 minutos atrasado. João se tornava também, ao menos desde quando se tem informações, o 42º descendente de sua família a não morrer de causas naturais. Ou assim ele gostaria de ser sepultado. Não menos que isso, ele morreu 42 dias antes de completar 42 anos, uma data que tinha esperado desde quando leu a bendita obra literária pela primeira vez.

Contudo, nenhuma dessas informações realmente faria diferença para João. O que ele realmente gostaria de saber antes daqueles 42 passos até o final súbito de seu ser vivente, era que: se ele tivesse dado apenas duas olhadas para o lado naquele dia, teria atravessado a rua em cerca de 20 passos e estaria são e salvo na outra calçada. Teria continuado sua caminhada por pouco mais de 15 minutos de um relógio comum e entraria em um pequeno café, aonde raramente ia. Porém, lá encontraria uma moça muito simpática, com quem já havia cruzado uma meia dúzia de vezes. E que, naquele instante entendeu algo que poucas pessoas tinham entendido até então. Uma pergunta que tinha apenas uma resposta, que ela teria contato a João sem menores problemas. Mas quando aquilo lhe ocorreu, ninguém passível de compreensão estava lá. E antes dela conseguir chegar ao telefone um terrível e estúpido acidente ocorreu e a ideia, assim como João e o resto do planeta, se perdeu para sempre.


Feliz dia da Toalha para todos os nerds do planeta! Viva Douglas Adams (1952 - 2001)!

2 comentários:

Igor Santos disse...

Totalmente excelente!

Joey Salgado disse...

Acho que é um dos textos seus mais inspirados que já li. Sensacional, Du!

Abraço!